sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Minha Doce Alfabetização

A Pró Rosa e eu na minha formatura
da alfabetização

Se há algo que marcou a minha alfabetização com intensidade foi a minha dificuldade em realizar os exercícios. Porém o que acredito trazer a memória é o que realmente vale a pena se lembrar; a maneira como fui persuadida na escolinha a aprender a ler e escrever.
A doce professora Rosa, que prendia minha atenção primeiramente por seus longos e encaracolados cabelos, e sempre com seu sorriso memorável e seu meigo jeito de nos dizer “não meu amor, não é assim” ou então um satisfatório (ao menos para mim) “Parabéns!”, com esta professora tudo ficava prazeroso. Posso até está romantizando a historia, mas as marcas da compreensão e paciência que esta minha “Doce Professora” me deixou são reais até os dias de hoje. Mais tarde, mudando de serie não tive mais o mesmo contato com ela e logo ela teve de se ausentar.
Pincelando o mestre Paulo Freire percebo que não tem como falarmos de alfabetização e não cita-lo, pois ele dava uma aula de educação e ensino. Como não inserir neste meu diário de bordo seus pensamentos a respeito da relação aluno e professor quando o próprio Freire fala disto tão bem?
Um dos primeiros pontos que farei uso é o que Paulo Freire titula em seu livro “Pedagogia da Autonomia os saberes necessários á prática educativa.” como “Ensinar exige querer bem os educandos” (p.90). Pelo que pude perceber neste capitulo (cap. 3) Freire trará a discussão a postura também de humanismo do professor.
Acredito que apesar de este tema estar no final do livro, na minha alfabetização isto foi primordial para a Professora Rosa. Afinal como alguém conseguia ensinar com seriedade e com tanto carinho sem exceder nem um nem outro? Noto que Freire deixa muito claro que o querer bem que ele se refere está muito ligado a “alegria de viver”. O que me parecia era justamente isto que a Pró Rosa sentia, sempre sorrindo. De onde vinha todo aquele humor e paciência? 
Nesta discussão eu acredito que Paulo Freire liga muito o bem estar, á alegria, ao prazer na docência, e á rigorosidade também.

É falso também tomar como inconciliáveis seriedade docente e alegria, como se a alegria fosse inimiga da rigoridade. Pelo contrário, quanto mais metodicamente rigoroso me torno na minha busca e na minha docência, tanto mais alegre me sinto e esperançoso também. (FREIRE, Paulo. p.90)

Enfim, não sei se a minha “Doce Professora” da alfabetização lera esta obra, mas o que ela deixou em mim marcou-me o suficiente para eu não só aprender (apesar das dificuldades), mas também imita-la, amava brincar de Escolinha, onde eu era a professora. Como eu me divertia! Trazendo a memória momentos da minha alfabetização lembro-me desta professora amável e divertida, a Pró Rosa nunca me pareceu ser chata e nem alienada, apesar de naquela época eu não ter senso critico ainda (acredito) na verdade não há recordações ruins sobre ela.  Talvez toda a dificuldade que enfrentei durante os meus primeiros passos de aprendizagem realmente não deva ser significativa ao ponto de roubar a mensagem que para mim hoje como futura Pedagoga, Professora é muito mais importante, o de envolver o aluno equilibrando conhecimento com afeto, afinal é uma profissão totalmente ligada ao próximo. E durante minhas series iniciais muitas professoras com quem estudei eram atenciosas e preparadas. Muitas delas ainda atuam na mesma escola da minha alfabetização, ensinando as mesmas series.

Enfim, Freire educava jovens e adultos, mas não havia para ele restrições quanto a mensagem que transmitia para os docentes, a ideia dele era o progresso e eu vivo o progresso desde a minha alfabetização. Estou na universidade e desejando ser  professora desejando ser tão boa quanto a minha bela e gentil professora que me alfabetizou.  “Não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca.” (p. 91).

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